Falha em firmware da Coldcard expõe perdas de US$ 130 milhões em Bitcoin

Uma falha específica de firmware nos hardwares Coldcard, da Coinkite, foi identificada como a origem de uma série recente de perdas em carteiras, segundo a equipe de Bitcoin Engineering and Security da Block e desenvolvedores independentes do Bitcoin Core. O defeito revelou uma fragilidade crítica na autocustódia: em determinados modelos, a geração do "seed" podia ficar fraca antes mesmo de o usuário anotar a frase de recuperação. De acordo com as análises, o bug desviava a geração de números aleatórios do chip STM32 (fonte de aleatoriedade por hardware) para o gerador determinístico Yasmarang, usado como alternativa pelo MicroPython. Nos dispositivos Mk2 e Mk3 com firmware de 4.0.1 a 4.1.9, isso teria produzido seeds cuja aleatoriedade criptográfica "colapsou" para um conjunto pequeno e pesquisável. Nos modelos Mk4, Q e Mk5, o impacto teria sido menor, mas ainda relevante: seeds com cerca de 72 bits de entropia, abaixo dos 128 bits previstos no projeto. O ponto central é que a fraqueza não depende de erro do usuário. Uma pessoa podia registrar 12 ou 24 palavras, guardar a frase em local seguro, manter o dispositivo offline por anos e, ainda assim, terminar com uma chave que um atacante conseguiria reconstruir ao explorar o espaço reduzido de saídas do gerador alternativo. A atualização de firmware protege apenas as seeds criadas após a instalação do patch; qualquer seed gerada pela rota defeituosa precisa ser substituída por completo. A orientação da Coinkite aos afetados é gerar um seed totalmente novo e transferir os fundos. Importar a frase antiga em uma carteira de outro fabricante não elimina o risco, porque o problema está na origem do seed e acompanha as palavras de recuperação. Em termos práticos, o incidente expôs uma diferença entre o que muitos usuários acreditavam estar protegendo e o que, de fato, estava vulnerável. O armazenamento offline e o cuidado com phishing, malware e vazamentos não corrigem entropia fraca. Para parte dos proprietários, no instante em que o dispositivo gerou a chave (meses ou anos antes de qualquer depósito), o espaço de busca já estava determinado, independentemente do zelo posterior com a frase. A Coldcard consolidou reputação por recursos recomendados em guias de segurança de autocustódia: firmware "Bitcoin only", assinatura air-gapped, dois secure elements, código-fonte publicado e builds reproduzíveis. Segundo a apuração, a recompilação do firmware publicado e a comparação com o binário distribuído confirmam integridade de distribuição, mas não garantem que a rotina de geração de seeds tenha usado, de fato, a fonte de aleatoriedade correta. O caminho vulnerável teria sido distribuído a partir de um firmware lançado em 2021 e permaneceu em circulação até a divulgação em julho, num intervalo de cinco anos em que o código era público e o problema não foi detectado. Notas técnicas citadas no material indicam que revisões anteriores teriam verificado a presença do gerador correto em algum ponto do binário, sem confirmar que a rotina de seed o acessava. Dois grupos apareceram como parcialmente mais protegidos, ainda que a migração continue recomendada. O primeiro é o de usuários que configuraram uma passphrase BIP39 forte e única: como o BIP39 deriva a seed do mnemônico combinado com um "salt" que inclui a passphrase, frases diferentes produzem carteiras diferentes mesmo com as mesmas palavras. Essa passphrase é distinta do PIN (que apenas desbloqueia o hardware) e participa da geração das chaves. O segundo grupo é o de usuários que adicionaram entropia externa ao processo, como 50 ou mais lançamentos justos e independentes de dados privados; nesse caso, o gerador defeituoso do dispositivo deixa de ser a única fonte de aleatoriedade. Andrew Mannoukas, CISO do Xapo Bank, resumiu a lição em declaração ao CryptoSlate: "A lição deste incidente não é que hardware wallets são ruins; é que concentração é. Quando a segurança do seu Bitcoin é reduzida a um único segredo, criado em um único dispositivo, em um único momento irrepetível, você herda cada suposição embutida naquele momento." Ele acrescentou que dados do setor já indicam há anos que a maioria das perdas hoje decorre de gestão de chaves e falhas operacionais. O episódio também reabre o debate sobre multisig. Uma configuração 2-de-3 pode impedir que uma única chave comprometida mova fundos, mas três chaves geradas pela mesma implementação defeituosa viram um único ponto de falha. A própria documentação da Coldcard permite gerar múltiplos cosigners em um único dispositivo com passphrases diferentes, criando chaves separadas que ainda podem depender da mesma origem de aleatoriedade. A avaliação passa a ser menos "usa multisig" e mais "quem gerou cada chave, com qual implementação e com qual fonte de aleatoriedade". O texto faz um paralelo com a Ledger. No serviço opcional Recover, o Secure Element duplica e criptografa a entropia da carteira, divide o resultado em três fragmentos criptografados e os envia a provedores distintos de backup, processo que exige assinatura e aprovação física no aparelho. No caso da Ledger, o debate gira em torno de levar material secreto para fora do dispositivo sob condições aprovadas pelo usuário. Na Coinkite, o problema estaria "a montante": o firmware enfraqueceu o segredo antes mesmo de a fronteira de segurança do hardware entrar em cena. Em ambos os casos, o software do fabricante define onde fica, na prática, a fronteira de segurança da autocustódia, independentemente do marketing do hardware. Na cadeia, as primeiras varreduras teriam retirado cerca de 594 BTC de aproximadamente 500 carteiras. Pesquisadores on-chain associaram depois ao menos três ondas suspeitas ligadas à falha, totalizando perto de 1.367 BTC em mais de 4.500 endereços, avaliados em cerca de US$ 89 milhões na época. Relatos que circularam em 3 de agosto mencionaram uma possível quarta onda que poderia levar o total para perto de US$ 114 milhões. Alex Thorn, da Galaxy Digital, alertou que padrões na blockchain, por si só, não confirmam a ligação de alguns endereços com firmwares vulneráveis da Coldcard, mantendo a atribuição como provisória. Em atualização posterior de 4 de agosto, a Lookonchain, citando a Galaxy Research, estimou que as perdas relacionadas à Coldcard podem ter alcançado 2.055 BTC, cerca de US$ 130 milhões, distribuídos por mais de 7.700 endereços afetados. Dados de mercado reforçam a tendência de ataques voltados ao entorno operacional das chaves. A TRM Labs apontou que infraestrutura e comprometimento operacional, principalmente roubo de private keys e seed phrases, responderam por cerca de 76% do valor roubado em hacks cripto no primeiro semestre de 2026, embora representassem aproximadamente 15% dos incidentes. A CertiK classificou comprometimento de carteiras como a categoria de ataque mais cara no mesmo período, com mais de US$ 444 milhões em 33 ocorrências. Na prática, tem sido mais lucrativo atacar processos e sistemas ao redor das chaves do que a criptografia em si. O fundador da Coinkite, Rodolfo Novak, pediu desculpas publicamente, afirmou que a empresa assume total responsabilidade e ofereceu apoio com boletins de ocorrência, sinistros de seguro e investigações on-chain. Até 3 de agosto, reembolso não constava entre as soluções apresentadas. Diferentemente de uma exchange, que pode recorrer a reservas, seguros ou balanço, um fabricante de hardware wallet vende o produto e normalmente deixa a custódia do Bitcoin integralmente com o usuário, o que torna a responsabilidade por defeitos um ponto ainda sem resolução clara. O que vem pela frente para a autocustódia Num cenário positivo, a migração para novos seeds avança mais rápido do que o surgimento de novas ondas de ataque. Fabricantes reagem com testes de entropia, atestações e ferramentas mais claras para rotação emergencial de chaves. Passphrases, entropia externa com dados e multisig realmente diversificado deixam de ser "dicas avançadas" e passam a orientação padrão, marcando um alinhamento entre padrões de autocustódia e o discurso de marketing. Num cenário negativo, pesquisadores descobrem outros caminhos de seed fraco em modelos ou rotinas de configuração, e a confiança se deteriora antes que patches sejam distribuídos. Migrações em pânico também podem gerar perdas: erros de reutilização de endereços, transferências apressadas e uma nova onda de golpes de "suporte" mirando quem tenta mover fundos para segurança. A autocustódia elimina a capacidade de uma exchange de congelar saques, rehypothecar saldos ou quebrar levando fundos de clientes. Ainda resta uma dependência: o fabricante do dispositivo que transforma aleatoriedade em chave. Um único seed, nascido em um hardware de uma única empresa em um momento irrepetível, só vira soberania real quando existe uma segunda suposição independente sustentando essa segurança. O texto original afirma que a crise pós-Coldcard já chega a US$ 130 milhões e sugere que "not your keys" perde força quando se confia em um único dispositivo para gerá-las.