Barclays vê espaço para alta adicional nos Treasuries de 10 anos, apesar do ceticismo do mercado
Resumo de mercado por IA
Barclays e mercados de previsão apontam para pressão ascendente persistente sobre o rendimento do Treasury dos EUA de 10 anos, com recompras do Tesouro vistas como capazes de apenas suprimir temporariamente movimentos impulsionados pelo prêmio de prazo em meio ao aumento da dívida e do risco de inflação. A Citadel alerta que a supressão de rendimentos se assemelha à repressão financeira e pode deslocar o estresse para câmbio e commodities. Taxas livres de risco mais altas também fortalecem a dinâmica TARA, desafiando as avaliações de ações e apertando as condições financeiras.
Nível de impacto
● Alto
Ativos afetados
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Mercados de previsão como Kalshi e Polymarket passaram a embutir uma probabilidade maior de que os rendimentos dos Treasuries continuem subindo neste ano. O Barclays vai além: estima que o rendimento "justo" do Treasury de 10 anos pode chegar a 4,95%.
No Departamento do Tesouro, o secretário Scott Bessent tenta usar instrumentos disponíveis para conter as taxas de longo prazo, com destaque para recompras. A reação do mercado, no entanto, tem sido morna. A leitura é que algumas rodadas de buybacks dificilmente eliminam a pressão altista dos juros.
Na Kalshi, os participantes veem 56% de chance de o rendimento do Treasury de 10 anos atingir ou superar 4,75% até o fim de 2026, e 27% de probabilidade de passar de 5% até o fim do ano. Na tarde de segunda-feira, o papel girava em torno de 4,7%. Na Polymarket, a aposta majoritária indica cerca de dois terços de chance de o rendimento superar 4,8% pelo menos uma vez em 2026.
Os volumes nesses mercados ainda são limitados — contratos ligados à Kalshi somavam pouco mais de US$ 16.500 negociados — e não equivalem a projeções formais de instituições. Ainda assim, capturam um sentimento crescente: Bessent pode até segurar os yields por algum tempo, mas não altera as forças que empurram as taxas para cima. Recomprar Treasuries não resolve a questão central de quem financia o gasto fiscal dos EUA.
Na última semana, os títulos globais sofreram venda forte. A escalada do conflito entre EUA e Irã reativou temores inflacionários, enquanto a dívida pública americana ultrapassou US$ 40 trilhões pela primeira vez, ampliando as preocupações fiscais. Diante disso, Bessent anunciou a duplicação do tamanho das recompras de Treasuries de longo prazo para tentar estabilizar o mercado. Os yields caíram por pouco tempo e logo voltaram a subir.
Na segunda-feira, circulou a informação de que o Tesouro poderia usar cerca de US$ 1 trilhão da Treasury General Account (TGA) para financiar a ampliação do programa de recompras, o que voltou a provocar uma queda momentânea nas taxas.
O ponto crítico é que a recompra de títulos não reduz a necessidade total de financiamento do governo americano. Por isso, a Citadel Securities avalia que a estratégia carrega riscos. A casa argumenta que a tentativa de reduzir yields de longo prazo por meio de recompras tem traços de "repressão financeira": se os preços dos títulos não puderem cair o suficiente e os juros não refletirem riscos fiscais e de inflação, a pressão não desaparece — ela migra para outros mercados.
Nohshad Shah, responsável por vendas de renda fixa para Europa, Oriente Médio e África na Citadel Securities, observa que suprimir os yields dos Treasuries pode reduzir o apelo do dólar e alimentar a inflação via encarecimento das importações. A combinação recente — Treasuries longos com avanço fraco, dólar em queda e ouro retomando força — reforça essa leitura.
Com o Treasury de 10 anos perto de 4,7%, a pergunta que ganha peso entre investidores é se o nível já compensa para compra. Para o Barclays, a resposta ainda é não. Os estrategistas Ajay Rajadhyaksha e Anshul Pradhan avaliam que os vetores de alta dos juros não se esgotaram.
Na visão do banco, o rendimento do Treasury de 10 anos depende de dois componentes: (1) a expectativa do mercado para a média dos juros de curto prazo ao longo dos próximos 10 anos; e (2) o prêmio exigido para carregar riscos de taxa, inflação e incerteza fiscal (term premium). Pelas contas do Barclays, a taxa neutra está em torno de 3,65% e o term premium do papel de 10 anos é de aproximadamente 130 pontos-base, resultando em um rendimento "justo" de cerca de 4,95% — algo como 25 pontos-base acima do nível atual.
O que mais preocupa o Barclays é a persistência da inflação e o prêmio fiscal. A inflação nos EUA não alcança a meta de 2% do Federal Reserve há seis anos, e o aumento da dívida implica maior oferta de Treasuries. Quando investidores passam a duvidar da capacidade do mercado de absorver esse volume de novas emissões, exigem juros mais altos como compensação. O fato de a dívida do Tesouro ter superado US$ 40 trilhões é visto como o estopim dessas preocupações.
O banco também aponta falta de vontade política suficiente para uma consolidação fiscal. Em paralelo, o rendimento do JGB de 10 anos se aproximou de 2,9% e o yield dos títulos ultralongos do Japão superou 4% pela primeira vez. Para instituições japonesas que mantêm Treasuries no longo prazo, a renda fixa doméstica volta a ficar mais atraente.
Somam-se a isso os investimentos em capital ligados ao boom de IA, que elevaram as necessidades de financiamento das empresas americanas. A conclusão do Barclays é direta: o rendimento atual do Treasury de 10 anos ainda não remunera adequadamente riscos que seguem apontando para juros mais altos. A era do "TINA" acabou; os títulos voltaram a competir.
Nem todos, porém, adotam postura pessimista com Treasuries. Um movimento relevante aparece no mercado acionário dos EUA. Ed Clissold, estrategista-chefe para EUA da Ned Davis Research, avalia que, com uma alta estrutural dos juros, o mercado migra do "TINA" ("There Is No Alternative") para o "TARA" ("There Are Real Alternatives"). Em 2016, 63,4% das empresas do S&P 500 tinham dividend yield acima do rendimento do Treasury de 10 anos; hoje, essa fatia caiu para menos de 4%, o menor nível desde 2007. Na prática, um retorno livre de risco por volta de 4,7% passou a disputar de forma real o capital antes direcionado às ações.